sábado, 26 de junho de 2010

A Hermafrodita

Há algum tempo me foi pedido para escrever a história de duas mulheres, ou seria a história de duas almas perdidas num limbo existencial? Tentei fazer da mesma um conto de fadas, o qual tendia para o lado da heroína, ou seria uma pseudo heroina? Naquele momento acreditava que seria minha heroína, mas sinto que me enganei, mas também, como todo conto de fadas tem duas versões, no mínimo, escrevo agora, anos depois, uma outra face desta mesma história.
Este conto se passa em algum lugar do Brasil, não quero locá-la em nenhum outro. Neste lugar, uma cidade provavelmente, habitavam estas duas mulheres: Ana Paula e Natasha. A segunda vivendo das migalhas da primeira e aquela vivendo numa idolatria desta.
A Ana Paula achava que não poderia viver sem a Natasha, que ela a ajudava a ver o lado bom da vida e principalmente, entregar-se a ele. O que a princípio era uma brincadeira, uma idéia baseada na letra de uma música, foi aos poucos se tornando real, primeiro a Natasha, personagem da Ana Paula (acho que o primeiro que ela criou) em seguida o alter ego da Ana Paula, a menina tímida, rejeitada. A Natasha quis dar à Ana Paula, sensações as quais ela nunca havia experimentado, fazê-la cometer sandices nas quais a Ana Paula nunca havia pensado. A menina passou a acreditar que aquilo era certo. Possuída pela Natasha a Ana Paula bebeu, fumou, foi pra cama com alguns rapazes, magoou outros, para que? Pelo simples prazer de dizer: eu quis, eu fiz. Durante algum tempo, eu também, autora, acreditei na veracidade e na liberdade ou deveria dizer leviandade da Natasha, cheguei a defendê-la abertamente, como se ela precisasse de uma advogada. Aos poucos percebi o quanto a personagem da Natasha é fraco, raso, que a mesma só existia na mente da Ana Paula e o que estava aparentemente fundido, de repente foi se separando, a Natasha foi ficando cada vez mais fraca, foi esmorecendo, até morrer, junto com seu instinto suicida e aos poucos a Ana Paula reapareceu, ou ainda reaparece, toma forma e consciência de si mesma. Agora estou no trabalho de criação de outra personagem, mas desta vez sou eu mesma, num trabalho constante de me recriar.
Hoje chego a pensar que se pudesse definir a Natasha, ela diria que esta personagem bizarra, foi uma forma dela se torturar, se flagelar, por tudo aquilo que estava guardado dentro dela e que não se sentia capaz de deixar expressar. A Natasha foi a Auschwitz particular da Ana Paula, porém a mesma foi mais forte, sobreviver a ela, assim como aqueles sobreviveram as torturas do holocausto. Trouxe marcas ainda que superficiais desta experiência, mas assim como os sobreviventes, carregou em si a vontade e a esperança de sobreviver e isso fez com que hoje eu chegasse até aqui para contar esta história.
Agradeço a Ana Paula por ter sobrevivido e peço perdão por tê-la julgado tão mal e precipitadamente. A Ana Paula realmente foi mais forte, afinal foi ela que, assim como Hermes, trouxe Orpheu do submundo para a superfície, trouxe a menina que estava lá no seu próprio submundo.
As experiências foram válidas, sofridas, mas válidas, assim como os sobreviventes tornaram-se mais fortes, ela também se tornou, embora, sinto que não repita a dose.A Ana Paula pede perdão, por todos aqueles que passaram pelo caminho da Natasha, e pede perdão também por ela, por todos os quais ela magoou, embora sinta que fosse para evitar um mal maior. A Ana Paula espera ser perdoada, mas se não for, não tem importância, pois ela já se perdoou, hoje a Ana Paula aceita quem é.

Manifesto Imoral

Quem é imoral: eu ou você?
O que é ser imoral?
Quem são os imorais?
Quem você considera imoral?
Seriam os imorais aqueles que a sociedade colocou à margem somente por pensarem ou agirem de forma diferente? A chamada minoria?
Gays, lésbicas, negros pobres, judeus, deficientes, índios e todos aqueles esquecidos ou somente lembrados quando são apedrejados.
Seriam os gays e lésbicas imorais somente por seguirem suas vontades, seus instintos, serem felizes a sua maneira, viverem a sua verdade, serem eles mesmos sem se preocupar com o que vão pensar deles? Praticam o amor livre, de barreiras, de preconceitos, libertário, não libertino, já que o homossexualismo não quer dizer em hipótese alguma promiscuidade, mas simplesmente mais uma forma de se manifestar o amor.
Seriam os negros imorais simplesmente por possuírem a cor da pele diferente da nossa? Que maneira nazista de julgar uma pessoa! Todos somos iguais, temos a mesma estrutura, o mesmo sangue corre em nossas veias. Que maneira de agradecer àqueles que ajudaram o progresso de nosso país e de vários países, regando com sangue nossas riquezas.
Seriam os deficientes imorais somente por lhes faltar algo, uma peça que faz com que todo o conjunto não funcione como se esperava, os tratam como incapazes, como se fossem culpados por serem o que são, como se tivessem escolhido ser assim, alguns dizem que sim, mas ainda não podemos saber a verdade.
Seriam os pobres imorais somente por não possuírem riquezas, uma vasta conta bancária, por não terem dinheiro suficiente para fazer tudo o que gostariam, por terem que “estabelecer prioridades”, terem seus nomes constantemente “lembrados”, por instituições de apoio ao crédito e pior ainda, por não terem muitas vezes nem o que comer e roubarem um pão que talvez fosse jogado fora?
Que mundo torto esse o nosso, onde orientação sexual, cor, condição social, são requisitos para se medir o caráter, a moral!
Não! Imorais somos nós! Nós que ferimos nossos instintos, nos violentando a cada dia, querendo ser o que não somos, viver uma vida que não é nossa simplesmente para agradar àqueles que insistem em cuidar da nossa vida e se esquecem de olhar as próprias.
Imorais somos nós, quando nos anulamos a cada dia, querendo viver como os outros, agir como os outros reproduzindo modelos pré –estabelecidos e esquecendo nossa verdadeira essência.
Imorais somos nós, quando julgamos as pessoas pelo que elas demonstram, têm, sua aparência e nos esquecemos de saber quem são, saber sua história de vida, de onde vieram, seus valores, julgamos a embalagem e esquecemos de olhar o conteúdo.
Imorais somos nós que promovemos guerras em nome da paz, que temos consciência dos nossos atos, que vivemos numa sociedade esclarecida, polida e insistimos em agir como selvagens, os mesmos selvagens que nós, imorais, insistimos em destruir, seja física, seja culturalmente.
Mais que imorais, somos amorais, pois agimos contra a moral exatamente por não termos moral, por não a conhecermos, por ainda que inconscientemente fazermos todas essas barbaridades que foram descritas e tantas outras, que infelizmente, os jornais e a História mostram os homens cometerem.
Somos imorais por querer ser o que não somos, viver uma vida que não é a nossa, morrer por uma causa pela qual não achamos que valha a pena viver.

Quem são os imorais? Eles ou nós?

O Condor e o Golfinho

A história que vou contar agora se passou há muitos anos, séculos, num reino muito distante, o condor e o golfinho.
Como disse, a mesma se passou há muito tempo, tempo esse em que vemos essas mesmas personagens disputando seu espaço nem sempre de forma harmônica.
O nosso amigo condor ficava sempre nos ares, nos altos rochedos e sobrevoava todo o reino, mas era triste, tinha uma tristeza profunda, a falta da liberdade, seu espaço era limitado, tinha que ficar sempre lá, sozinho, na imensidão dos ares, pois sabia que se descesse, a descida poderia ser fatal.
Por outro lado, temos o nosso amigo golfinho, tão esperto, tão simpático e corajoso, o único que enfrenta a grande fera dos mares, o nosso amigo sempre ia e vinha para onde queria e tinha por sua vez vários amigos no reino marinho.
Essa liberdade, essa alegria do golfinho causava inveja no condor que não se sentia nem livre e nem alegre, então todos os dias, mesmo correndo risco de morrer, ele descia o mais que possível e atirava pedras ao mar, na esperança de atingi-lo, de feri-lo de alguma forma e qual não era a sua raiva quando percebia que o golfinho não era atingido e aparecia todo o dia na direção em que se encontrava o rochedo do condor e mostrava sua carinha sorridente.
Porém, um dia, as pedras atingiram o golfinho, não da forma como esperava o condor, pois atingiram o mamífero no que ele tinha de mais precioso, seu coração, seus amigos tão caros, começaram a sucumbir, vítimas dos golpes do condor, afinal não eram tão espertos quanto nosso amigo golfinho.
O golfinho então, como não podia chegar até o condor, pois algo que o pássaro ignorava, o golfinho também sofria com a falta de liberdade não podia chegar até ele. O golfinho então manda, entre seus muitos amigos, uma gaivota, pois pensou que não haveria melhor mensageiro, já que ela poderia tranquilamente chegar à superfície da água pegar a sua mensagem e entregá-la lá no céu ao condor.
A mensagem dizia o seguinte: “amigo condor, que prazer tem você em me atingir? O que te faz me odiar tanto assim?”
O condor então lhe responde: “ Na verdade, amigo golfinho, não o odeio, tenho sim inveja de você, da sua liberdade, de poder ir aonde quiser, dos amigos que você tem e eu não, sempre sozinho, no alto deste rochedo. A gaivota leva então a mensagem do condor para o golfinho, que tem como resposta o seguinte:
Amigo condor, entendo a sua situação, a minha também não é nada confortável, senti-me sozinho desde que você afastou todos os meus amigos, a solidão é horrível, concordo contigo, mas me conformo, pois aprendi que cada coisa, cada ser vivo, tem o seu lugar.
O que seria do dia, se não existisse a noite, o que seria do mundo, da vida na Terra se só existissem golfinhos, quem iria embelezar os ares com seus vôos, o mar ficaria congestionado. Já imaginou o caos? Também tenho inveja de você, queria poder voar mas não posso, consigo somente sonhar com as grandes alturas, imaginar como seria a vida lá em cima, mas faço aqui em baixo o melhor que posso com aquilo que me foi dado, e tento, o mais que possível fazer amigos, o que faz com que minha vida se torne menos solitária...
O condor se compadece do sofrimento solitário do golfinho mas não se convence, afinal, para ele sua dor é ainda maior e lhe diz então:
“Amigo golfinho, você não compreende o tamanho da minha dor, meus companheiros todos desapareceram, mortos pelas mãos dos predadores, meus irmãos de outros continentes já não existem mais e meus filhos foram mortos em tenra idade. Sinto-me tão só, além do que não posso nem me aproximar de você correndo o risco de arriscar sua própria vida, afinal seres como você são o que me alimenta, várias vezes já matei minha fome com os cadáveres dos seus amigos. Que desgraçado sou!!!”
Todos esses recados foram mandados incansavelmente pela companheira gaivota, que por anos acompanhou a história desses dois seres, no fundo tão sós. Porém o tempo passou, a gaivota, assim como os outros personagens, envelheceu e foi ficando cada vez mais cansada, quase não conseguindo levar os recados para o condor, nos últimos tempos deixava os recados no seu ninho solitário, o que deixou o grande pássaro entristecido.
Um dia, no auge de sua tristeza, da sua solidão, o condor resolve arriscar-se, voa tão baixo que quase não consegue voltar, no fundo era isso que queria, não queria voltar e nisso, um tubarão com seus dentes enormes tenta atacá-lo, neste momento o condor percebe que não quer morrer, que não quer desistir, mas apavorado, percebe que não conseguirá alçar vôo, ganhar altura a tempo, o tubarão vai atacá-lo, mas eis que nesse momento, o golfinho, percebendo um movimento estranho no mar, descobre o tubarão e o ataca, salvando o condor da morte certa.
O condor, daquele dia em diante tornou-se extremamente grato ao golfinho e à vida que lhe deu uma outra chance, porém sem esquecer que a distância que o separava do golfinho continuava ali.
Resolveu então que daria um novo sentido a sua vida, não se importaria mais com aquilo e viveria o melhor que pudesse, e assim foi, e então ele percebeu que as coisas começaram a mudar para ele, até uns novos amigos começaram a surgir, uma companheira, vieram os filhos, mas todos os dias ele se lembrava do golfinho que lhe salvou a vida e o adorável peixe, também se lembrava dele, com carinho.
Desde então todos os dias o condor, recolhe uma rosa, uma roseira deu flores, próxima ao penhasco, e joga-a ao mar em agradecimento ao golfinho, este por sua vez, todos os dias nada até próximo do rochedo e faz as melhores acrobacias para alegrar ao condor que até sorri, ah, ele sempre leva seus amigos junto com ele.
E assim termina a minha história e uma lição pude tirar dela, se não podemos dar uma solução definitiva para uma situação devemos aprender o melhor possível a conviver com ela.